Por Dr. Guilherme Lepski

Todos se abateram fortemente com a tragédia sofrida no dia 29 de dezembro de 2013 pelo piloto alemão de Fórmula 1 Michael Schumacher. Depois de algumas intervenções cirúrgicas para drenagem de hematomas no cérebro e alívio da pressão elevada na cabeça, e quase seis meses do acidente, a imprensa alemã noticia quase eufórica que o piloto já respira sem as mesmas dificuldades e pode se comunicar com os olhos com os familiares. Compreensível que o fato seja motivo de alegria e impolgação para a família e para os fãs, mas devemos nos perguntar, passado o otimismo inicial, quais as reais chances do piloto.
Após um acidente em velocidade, distinguimos as lesões focais, secundárias ao choque direto (contra a pedra, por exemplo), das lesões difusas, mais extensas (causadas por desaceleração brusca, como foi o caso do maior fã dos brasileiros, o Ayrton Senna). Sem sombra de dúvida, as lesões difusas, por envolverem maior energia, são muito mais graves. Não obstante, lesões focais com choques direto frequentemente causam acidentes graves, como foi o caso do Schumi (apelido carinhoso que os alemães o deram). Para esses doentes, mesmo com atendimento inicial impecável (e podemos supor que o atendimento tenha sido dentro dos padrões esperados), a recuperação muitas vezes é impossível e o traumatismo que se estabelece é gravíssimo. Porquê? Em primeiro lugar, o cérebro sofre com perda de sangue, com o menor teor de oxigênio (o doente em coma respira mal ou não respira), e com a pressão elevada na caixa craniana. Não bastasse isso, o cérebro do adulto não se regenera! OPA! Aí exageramos...
Isso foi o que se acreditou por muito tempo até recentemente. Nos anos 90, pesquisadores americanos descobriram que novos neurônios novos são gerados no cérebro adulto quase a vida inteira. Hoje se sabe que esses neurônios novos são integrados em circuitos de memória, de orientação espacial, de olfato (cheiro), entre outras funções. Novos desdobramentos dessas pesquisas indicam que essas células podem participar da recuperação após um derrame, por exemplo. A pergunta que essas mesmas células poderiam participar da recuperação de um doente após um acidente grave como o que se abateu sobre Schumi. De fato, sabemos que nossa fábrica de neurônios pode ser posta a trabalhar em regime de hora-extra (produzindo mais neurônios) se aumentarmos nossa atividade física e fizermos muito esporte. Ora, se soubermos o que essas células precisam para se formar, o que condiciona o aparecimento delas, poderíamos muito bem oferecer essa "droga" ou "medicamento" e esperar maior produção de células nervosas. Algumas pesquisas de nosso grupo apontam nesse sentido. Uma outra estratégia seria a de se isolar células nervosas do próprio paciente e depois de expandi-las, ou de se procriá-las em laboratório, se re-implantar no cérebro doente sem perspectivas de recuperação espontânea. Um estudo dessa ordem está sendo iniciado na Faculdade de Medicina da USP, em vítimas de traumatismo agudo e grave que necessitam de uma operação emergencial como a que sofreu o Schumi. Nessa primeira abordagem, estamos retirando células nervosas, isolando células-tronco em Laboratório, para posterior implante se o doente atingir o estágio do hepta-campeão sem melhora. Ainda é cedo para afirmarmos se nossa hipótese científica está correta ou não. Mas tudo leva a crer que a Medicina está se aprimorando rápido, e esperamos contar muito em breve com opções de tratamento mais criativas e mais eficazes para casos tão dramáticos como o do hepta campeão de Fórmula 1 Michael Schumacher, assim como de muitos outros pacientes que sofrem incógnitos todos os dias.
Publicado no blog do Dr. Guilherme Lepski: www.guilhermelepski.com