Novo tratamento para dor crônica- estimulação ganglionar

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP implementam no Brasil uma técnica pioneira para tratamento de dores crônicas secundárias a lesão nervosa, baseada no implante de eletródios nos gânglios das raízes nervosas. Tal técnica foi lançada na Europa no início do ano, e chega ao Brasil de maneira pioneira, num estudo conduzido na USP.



       Em outubro deste ano, foi testada de maneira prioneira no Brasil, na Faculdade de Medicina da USP, uma nova forma de tratamento da dor crônica, baseada na estimulação ganglionar. O doente beneficiado com a nova terapia era um rapaz de 34 anos com dores lombares há 14 anos após intervenções cirúrgicas na coluna lombar malsucedidas. Trata-se de uma nova técnica cirúrgica que visa a inibição dos disparos elétricos do gânglio da raiz dorsal. Esse gânglio é a primeira estação de processamento dos impulsos dolorosos que atingem o Sistema Nervoso, explica o Prof. Dr. Guilherme Lepski. Estudos experimentais preliminares (Koopmeiners 2011) demonstraram que, sob efeito da estimulação direta, as células nervosas presentes nesses gânglios deixam de disparar de forma descontrolada, em salvas, que são característicos em dores crônica, e passam a disparar potenciais de ação únicos, o que levaria à redução da sensação dolorosa. De fato, desde que o sistema foi disponibilizado no início do presente ano, cerca de 130 doentes foram implantados mundialmente (todos na Europa e Austrália; no Brasil e nos Estados Unidos, seu uso ainda é experimental). Segundo essa experiência inicial (Liem et al, 2014), as melhores indicações para essa nova terapia são 1. dor pós-cirurgia da coluna vertebral, também chamada de síndrome pós-laminectomia, 2. síndrome de dor complexa regional, ou distrofia simpático-reflexa, 3. dor de coto de amputação, 4. diversas causalgias e lesões do sistema nervoso periférico, dentre elas lesões traumáticas de nervos, a lesão dos nervos inguinais após reparação de hérnia abdominal, lesão do nervo safeno após cirurgia do joelho, lesão dos nervos torácicos após cirurgia cardíaca, entre outras indicações. Ainda permanece para ser esclarecido o efeito dessa terapia nas neuralgias por herpes zoster, nas dores fantasma e nas dores por isquemia, cardíaca ou de membros inferiores. Esse é o foco do estudo em curso na Universidade de São Paulo, explica o Prof. Lepski. Nos estudos iniciais, os pacientes foram seguidos por até um ano, e a intensidade da dor e diversos critérios de qualidade de vida foram analisados. Notou-se melhora de 70-80% na intensidade da dor nas pernas ou no pé após um ano, e 50% de melhora na intensidade da dor lombar, que geralmente é refratária às medidas cirúrgicas convencionais. Após um ano, 68% dos doentes mantém melhora da dor de pelo menos 80%, ao passo que com a técnica convencional de estimulação da medula espinhal, somente 21% dos doentes mantém esse grau de melhora. Num outro estudo conduzido sob supervisão do Prof Lepski na Universidade de Tübingen, na Alemanha, têm-se observado redução dos potenciais elétricos corticais evocados por dor nos doentes submetidos à estimulação ganglionar (resultados preliminares).  Essas evidências apontam para uma nova esperança no tratamento de dores crônicas em pacientes que se mostraram refratários aos tratamentos convencionais atualmente disponíveis.