Por Fábio Zerati
Quadro clínico e exame físico
Prognóstico
Exames Complementares
Tratamento
Escrito em parceria com a Dra Jeanne Oiticica e Dra Roseli Saraiva Moreira Bittar
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| Foto Divulgação |
A surdez súbita (SS) pode ser definida como toda perda auditiva neurossensorial igual ou maior que 30dB, acometendo pelo menos três freqüências consecutivas, de instalação súbita ocorrendo em até três dias. Sua incidência é maior entre a terceira e sexta décadas de vida, acometendo em especial pacientes entre 20 e 60 anos, diminuindo nos extremos de idade; apresenta ainda distribuição proporcional entre sexos. Na maioria das vezes acomete ouvido único, sendo bilateral em cerca de 5% dos casos.
A maior parte dos casos de surdez súbita é idiopática, isto é, não são identificadas quaisquer causas desencadeantes da surdez. No entanto, possíveis etiologias são: Infecciosas (meningite, sarampo, rubéola, sífilis, herpes vírus, HIV, mononuclose, toxoplasmose, citomegalovírus, Lyme); Tóxicas (drogas ototóxicas, veneno); Imunológicas (Doença imunomediada primária da orelha interna, ou secundária a outras doenças incluindo Lúpus Eritematoso Sistêmico, Síndrome Anti-Fosfolípide, Granulomatose de Wegener, Síndrome de Cogan); Neoplásicas (neuroma do acústico, meningioma, linfoma, leucemia, mieloma, carcinomatose meníngea); Neurológicas (esclerose múltipla, neurosarcoidose); Vasculares (AVC, anemia, bypass cardiopulmonar, insuficiência vertebrobasilar, arritmias); Traumática (fratura de osso temporal, trauma acústico, barotrauma, fístula perilinfática, cirurgia otológica).
Quadro clínico e exame físico
O primeiro passo é a coleta de uma história clínica detalhada cujos elementos incluem: tempo de início da surdez, orelha afetada, progressão ou flutuação, fatores desencadeantes, sintomas associados (zumbido, vertigem, plenitude auricular, distorção sonora, otorréia, otalgia, paralisia facial). A forma clínica mais comum é a de perda auditiva súbita unilateral acompanhada de zumbido. Alguns pacientes conseguem identificar o exato momento em que ocorreu a perda, embora esta possa progredir em até três dias. O acometimento bilateral é bastante raro. O exame físico do paciente com SS deve incluir exame otorrinolaringológico padrão que inclui otoscopia, exame clínico vestibular, avaliação dos pares cranianos. Na otoscopia deve-se atentar para presença de rolha de cerume ou alterações da orelha externa que possam ser a causa da surdez. Ainda na otoscopia é preciso avaliar a integridade da membrana timpânica e alterações da orelha média, efusões, infecções. Na grande maioria dos casos, os pacientes com surdez súbita apresentam otoscopia normal. A disfunção tubária é um importante diagnóstico diferencial, uma vez que pode se apresentar como perda súbita de audição e a otoscopia ser normal.
Prognóstico
O prognóstico de recuperação da audição após SS depende da influência de alguns fatores, entre eles: a severidade da perda auditiva, a presença de vertigem, o tempo entre o início dos sintomas e o primeiro tratamento, a audição na orelha contra-lateral, e o tipo de perda auditiva no audiograma.
Exames Complementares
O primeiro exame complementar a ser solicitado para confirmação diagnóstica é audiometria. Outros exames: hemograma completo, glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicérides e função tireoideana (T4 livre e TSH); provas de atividade inflamatória: VHS, imunocomplexos circulantes (ICC), proteína C reativa (PCR), complemento total e frações (C3 e C4); pesquisa de anticorpos: fator reumatóide (FR), fator anti-núcleo (FAN), anti-cardiolipina, anti-coagulante lúpico, anti-tireoglobulina, anti-peroxidase; sorologias: herpes vírus, HIV, rubéola, mononucleose, toxoplasma, citomegalovirus, caxumba, doença de Lyme, VDRL e FTA-ABS (sífilis).
Em todos os casos está indicada a realização de exame de imagem, preferencialmente ressonância magnética (RM) de crânio e conduto auditivo interno.
Tratamento
Para os casos de etiologia desconhecida, as drogas mais estudadas e que apresentam resultados mais promissores são os corticóides, que parecem reduzir o tempo de recuperação auditiva, especialmente quando introduzidos precocemente. A grande controvérsia do tratamento provavelmente está relacionada às altas taxas de recuperação espontânea, a baixa incidência da doença, e os diferentes parâmetros usados para padronizar recuperação auditiva entre autores na literatura tornam a validação das modalidades de tratamento difícil.
Outras drogas que podem ser úteis são: aciclovir, pentoxifilina e vitamina A.
O tratamento com dexametasona (8 mg por dia) pode ser mantido até o trigésimo dia de uso, na dependência de melhora dos limiares auditivos, quando sua dose deve ser progressivamente reduzida. A pentoxifilina e a vitamina A podem ser usadas por até 60 dias, e devem ser suspensas assim que haja estabilização dos limiares auditivos. Todos os pacientes são acompanhados por vários meses após o episódio de SS, pois os limiares auditivos podem sofrer mudanças e sua estabilização pode levar até seis meses.
Escrito em parceria com a Dra Jeanne Oiticica e Dra Roseli Saraiva Moreira Bittar
